Dislipidemias: Estatinas e Inibidores da absorção de colesterol
As
dislipidemias representam um dos principais fatores de risco modificáveis para
o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Essa condição caracteriza-se por
alterações nas concentrações plasmáticas de lipídios, incluindo colesterol
total, lipoproteína de baixa densidade (LDL), lipoproteína de alta densidade
(HDL) e triglicerídeos (SBC, 2017). O aumento do LDL está fortemente associado
à progressão da aterosclerose, que é um processo inflamatório crônico que
resulta na formação de placas nas paredes arteriais, aumentando
significativamente o risco de eventos cardiovasculares, como infarto agudo do
miocárdio e acidente vascular cerebral (GOLDSTEIN; BROWN, 2015).
O manejo das dislipidemias inicia-se
com a adoção de medidas não farmacológicas, baseadas em mudanças no estilo de
vida, como alimentação balanceada, prática regular de atividade física e
interrupção do tabagismo. Contudo, em grande parte dos casos, essas
intervenções isoladas não são suficientes para atingir as metas lipídicas
recomendadas pelas diretrizes clínicas, tornando necessária a introdução de
terapias farmacológicas (SBC, 2021).
Estatinas
Os inibidores da
hidroximetilglutaril coenzima A redutase (HMG-CoA), mais conhecidos como
estatinas, são fármacos hipolipemiantes amplamente utilizados no tratamento e
prevenção das doenças cardiovasculares ateroscleróticas e muito utilizadas para
o tratamento de dislipidemias. Seu mecanismo envolve a inibição do HMG-CoA
redutase, enzima fundamental para a síntese do colesterol, o qual impede a
conversão do HMG-CoA em mevalonato (precursor do colesterol), além de levar a
uma redução do colesterol tecidual e um aumento dos receptores de LDL (Fonseca,
2005).
As principais indicações clínicas
das estatinas são o uso no tratamento da hipercolesterolemia primária,
dislipidemia mista, prevenção primária de eventos cardiovasculares em pacientes
com risco elevado como diabetes, hipertensão, tabagismo e prevenção secundária
em indivíduos com doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral
isquêmico ou doença arterial periférica (SBC, 2021).
Efeitos
adversos e interações medicamentosas
Apesar de sua eficácia e segurança,
existem alguns efeitos adversos que alguns indivíduos podem apresentar, como a
mialgia (dor muscular), miopatia e rabdomiólise (lesão muscular grave), alterações
hepáticas, como elevação transitória das transaminases, distúrbios
gastrointestinais (náuseas, constipação, dispepsia) e efeitos metabólicos, como
leve aumento do risco de diabetes mellitus tipo 2 em pacientes predispostos
(RIDKER et al., 2017).
As estatinas apresentam potencial
para algumas interações medicamentosas, principalmente devido ao seu
metabolismo hepático mediado pelo citocromo P450 (CYP450). As interações variam
conforme a estatina utilizada, já que diferentes fármacos dessa classe são
metabolizados por isoenzimas distintas.
As estatinas metabolizadas pela
enzima CYP3A4, como sinvastatina e atorvastatina estão mais sujeitas a
interações medicamentosas. O uso concomitante de inibidores potentes da CYP3A4 como
eritromicina, claritromicina e verapamil, pode aumentar de forma significativa
as concentrações plasmáticas da estatina. Esse aumento eleva o risco de
toxicidade muscular, manifestando-se como mialgia, miopatia ou, em casos mais
graves, rabdomiólise (NEUVONEN et al., 2006).
Por outro lado, estatinas como a
fluvastatina e rosuvastatina são metabolizadas pela CYP2C9, estando sujeitas a
interações com fármacos que atuam sobre essa via, como varfarina e fenitoína.
Já a pravastatina e a pitavastatina são pouco dependentes do sistema CYP450, o
que as torna opções mais seguras em pacientes que fazem uso de múltiplos
medicamentos e apresentam maior risco de interações.
Outro ponto importante é a
associação das estatinas com fibratos, que pode aumentar a concentração
plasmática das estatinas e potencializa o risco de efeitos adversos musculares
(CANNON et al., 2015).
Inibidores
da absorção do colesterol
Outra classe muito utilizada para o
tratamento da dislipidemia são os inibidores da absorção de colesterol que atuam
reduzindo a entrada de colesterol no organismo a partir do intestino delgado,
complementando a ação das estatinas, como dito anteriormente, que diminuem a
síntese endógena de colesterol. O principal representante dessa classe é a
ezetimiba, que age especificamente na borda em escova dos enterócitos,
bloqueando a proteína transportadora Niemann-Pick C1-Like 1 (NPC1L1),
responsável pela absorção do colesterol dietético e biliar (Altmann et al.,
2004).
Ao
impedir essa absorção, a ezetimiba reduz a quantidade de colesterol que chega
ao fígado, o que estimula o aumento da expressão dos receptores de LDL e,
consequentemente, promove uma maior remoção do colesterol circulante (Davis;
Veltri, 2007). Essa ação resulta em uma redução significativa dos níveis de
LDL-colesterol, sendo frequentemente utilizada em associação com as estatinas
para potencializar o efeito hipolipemiante (Ballantyne, 2014).
A
combinação de ezetimiba e estatina é especialmente benéfica em pacientes que
não atingem as metas lipídicas apenas com o uso da estatina ou que apresentam
intolerância a altas doses dessa classe. Estudos clínicos demonstram que essa
associação proporciona reduções adicionais de LDL-colesterol e melhora dos
desfechos cardiovasculares, sem aumento relevante de efeitos adversos (Cannon
et al., 2015).
Efeitos
adversos e interações medicamentosas
A
ezetimiba é, de modo geral, um fármaco bem tolerado e apresenta um perfil de
segurança favorável quando utilizada isoladamente ou em associação com
estatinas. Os efeitos adversos mais comuns relatados incluem cefaleia,
diarreia, dor abdominal, fadiga e mialgia leve (Ballantyne, 2014). Esses
sintomas costumam ser leves e transitórios, raramente levando à descontinuação
do tratamento (Davis; Veltri, 2007).
Quando
administrada em conjunto com estatinas, podem ocorrer aumentos leves nas
transaminases hepáticas, embora esses casos sejam geralmente assintomáticos e
reversíveis após o ajuste da dose ou interrupção da terapia (Cannon et al.,
2015). Além disso, há relatos ocasionais de mialgia e elevação da
creatinoquinase (CK), porém com frequência inferior à observada nas
monoterapias com altas doses de estatinas (SBC, 2021).
Entre
as principais interações medicamentosas, destacam-se aquelas com colestiramina
e outros sequestrantes de ácidos biliares, que reduzem significativamente a
absorção intestinal da ezetimiba. Por isso, recomenda-se que a administração
desses fármacos seja feita com um intervalo mínimo de duas horas antes ou
quatro horas depois da ezetimiba (Davidson, 2002).
Outra
interação relevante ocorre com a ciclosporina, que pode aumentar as
concentrações plasmáticas da ezetimiba, exigindo monitoramento clínico e
laboratorial (Ballantyne, 2014). Em contrapartida, estudos demonstram que a
ezetimiba não altera de forma clinicamente significativa os níveis séricos de
digoxina, varfarina ou anticoncepcionais orais, o que reforça sua boa
tolerabilidade em terapias combinadas (Davis; Veltri, 2007).
REFERÊNCIAS
GOLDSTEIN, J. L.; BROWN, M. S. A century of
cholesterol and coronaries: From plaques to genes to statins. Cell, v. 161, p. 161-172, 2015.
SOCIEDADE
BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretriz Brasileira de Dislipidemias e
Prevenção da Aterosclerose. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 109,
n. 2, supl. 1, p. 1-76, 2017.
SOCIEDADE
BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Atualização das Diretrizes de Dislipidemias e
Prevenção da Aterosclerose. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 116,
n. 1, p. 160-238, 2021.
FONSECA,
Antonio. Farmacocinética das estatinas. Arquivos Brasileiros de Cardiologia,
v. 5, supl. V, p. 9-14, 2005.
ALTMANN, S. W. et al. Niemann-Pick C1 Like 1 protein is
critical for intestinal cholesterol absorption. Science,
Washington, v. 303, n. 5661, p. 1201–1204, 2004.
BALLANTYNE, C. M. Ezetimibe: mechanism of action and
clinical update. Journal of Clinical Lipidology, Amsterdam, v. 8, n. 3,
p. S27–S33, 2014.
CANNON, C. P. et al. Ezetimibe added to statin therapy after
acute coronary syndromes. New England Journal of Medicine,
Boston, v. 372, n. 25, p. 2387–2397, 2015.
DAVIS, H. R.; VELTRI, E. P. Zetia: inhibition of
Niemann-Pick C1 Like 1 (NPC1L1) to reduce intestinal cholesterol absorption and
treat hypercholesterolemia. Journal
of Atherosclerosis and Thrombosis,
Tokyo, v. 14, n. 3, p. 99–108, 2007.
SOCIEDADE
BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Atualização das Diretrizes de Dislipidemias
e Prevenção da Aterosclerose. Arquivos Brasileiros de Cardiologia,
Rio de Janeiro, v. 116, n. 1, p. 160–238, 2021.
DAVIDSON, M. H. Ezetimibe: a selective cholesterol
absorption inhibitor. Clinical Cardiology, Philadelphia, v. 25, n. 11,
p. 495–501, 2002.
RIDKER, P. M. et al. Anti-inflammatory therapy with canakinumab for
atherosclerotic disease. New England Journal of Medicine, v.
377, n. 12, p. 1119–1131, 2017.
NEUVONEN, P. J. et al. Drug interactions with lipid-lowering drugs: mechanisms and clinical relevance. Clinical Pharmacokinetics, v. 45, n. 6, p. 463–494, 2006.
👏🏻👏🏻👏🏻
ResponderExcluirUau!!
ResponderExcluir