Fitoterápicos e exames laboratoriais: O que você precisa saber sobre Interações e Interferências
Fitoterápicos e exames laboratoriais: O que você precisa saber sobre Interações e Interferências

Como os fitoterápicos interferem nos exames?
A interação dos compostos vegetais com os exames laboratoriais ocorre
por diferentes mecanismos, que podem ser classificados em efeitos
farmacológicos diretos, efeitos indiretos e interferências analíticas.
Nos
efeitos farmacológicos diretos, os princípios ativos presentes nas plantas
exercem ações fisiológicas que modificam parâmetros clínicos do indivíduo,
sendo possível, inclusive, mensurá-los. Por exemplo, compostos com ação
diurética, como os presentes no chá de hibisco (Hibiscus sabdariffa), podem alterar a concentração sérica de
eletrólitos, como sódio e potássio (BASTOS et al., 2015).
Já os efeitos indiretos estão relacionados à interação entre fitoterápicos e medicamentos. Determinadas plantas podem induzir ou inibir enzimas metabolizadoras, alterando a biodisponibilidade de fármacos e resultados laboratoriais. A erva-de-são-joão (Hypericum perforatum), por exemplo, é um indutor potente da CYP3A4 e da glicoproteína-P, podendo reduzir a concentração plasmática de anticoncepcionais, anticoagulantes e imunossupressores, o que pode causar falhas terapêuticas e/ou resultados laboratoriais inesperados (HU et al., 2005).
Por
fim, existem as interferências analíticas, em que os compostos presentes nas
plantas reagem diretamente com reagentes utilizados nas metodologias
laboratoriais, ocasionando resultados falsamente elevados ou reduzidos. Isso é
especialmente importante em exames colorimétricos e imunológicos, nos quais a
presença de pigmentos vegetais, polifenóis ou alcaloides pode modificar a
reação química, gerando falsos positivos ou negativos. A Organização Mundial da
Saúde alerta que esse tipo de interferência é subestimado na prática clínica,
mas pode impactar significativamente a confiabilidade dos resultados
laboratoriais, dificultando o diagnóstico correto (WHO, 2000).
Assim, compreender os
mecanismos de interferência dos fitoterápicos é essencial para profissionais de
saúde e laboratórios, uma vez que garante não apenas a segurança do paciente,
mas também a precisão diagnóstica. A anamnese detalhada, incluindo o uso de
plantas medicinais e suplementos, deve ser considerada indispensável na
interpretação de exames clínicos.
Exemplos relevantes na prática clínica
Utilizada no tratamento da depressão leve e
ansiedade, é um potente indutor da enzima CYP3A4 do citocromo P450. Isso pode
reduzir a eficácia de medicamentos metabolizados por essa via, como
anticoncepcionais orais, anticoagulantes e imunossupressores, além de alterar
exames de função hepática (HENDERSON et al., 2002; ROBY, 2000).
- Ginseng (Panax ginseng)
Conhecido como estimulante e adaptógeno, pode
interferir na coagulação, aumentando o risco de sangramentos. Em exames,
modifica resultados do Tempo de Protrombina (TP) e INR, confundindo o resultado
de pacientes em uso de varfarina (YUAN et al., 2004).
- Alho (Allium sativum)
Muito usado no controle de colesterol, o alho
possui ação antiplaquetária. Isso pode potencializar o efeito de
anticoagulantes e modificar exames relacionados à coagulação (BORDIA; VERMA;
SRIVASTAVA, 1998).
- Ginkgo biloba
Utilizado para melhorar memória e circulação,
também apresenta efeito antiplaquetário, interferindo em exames de coagulação e
aumentando o risco de sangramentos em pacientes que usam aspirina ou varfarina
(DUTTA-ROY; GORDON; C, 1999).
- Kava-kava (Piper methysticum)
Empregada para ansiedade e insônia, pode ser
hepatotóxica, levando ao aumento de enzimas hepáticas (TGO, TGP, GGT) em exames
bioquímicos (CLOUGH; BAILIE; CURRIE, 2003).
- Camomila (Chamomilla recutita)
Tradicionalmente a camomila é utilizada como
calmante leve e no alívio de distúrbios gastrointestinais, esta planta pode
exercer efeito anticoagulante e, em pacientes em uso de varfarina ou aspirina,
pode potencializar o risco de sangramentos e interferir em exames de
coagulação, como TP e INR (SEGAL et al., 2001; McKAY; BLUMBERG, 2006).
- Hortelã (Mentha piperita)
Utilizada para distúrbios gastrointestinais e respiratórios, a hortelã pimenta pode afetar a motilidade intestinal e a absorção de alguns fármacos, influenciando resultados terapêuticos e laboratoriais. Além disso, em doses elevadas, pode ocasionar elevação de transaminases hepáticas, alterando exames de função hepática (GRIGOLEIT, 2005; PERSAUD; HEANEY; GEOFFREY, 1995).
Por que essa informação é importante?
Muitos profissionais de saúde relatam casos em
que exames laboratoriais apresentaram alterações sem causa aparente, mas
posteriormente descobriu-se que o paciente fazia uso de chás ou cápsulas de
plantas medicinais (BASTOS et al., 2015). Quando essa informação não é
comunicada, há risco de diagnósticos incorretos, tratamentos desnecessários e
interações medicamentosas perigosas (WHO, 2014).
O que fazer para evitar problemas quando estiver
utilizando um fitoterápico e for realizar um exame laboratorial?
Para evitar esses infortúnios, o paciente deve
sempre informar ao médico e ao profissional que irá realizar a triagem e
anamnese sobre o uso de fitoterápicos ou suplementos. O registro adequado no
prontuário auxilia na interpretação correta dos resultados (WHO, 2000). O
médico, por sua vez, deve estar atualizado e bem informado sobre possíveis
interações (HU et al., 2005).
Conclusão
Referências bibliográficas:
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BORDIA, A.; VERMA, S.
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