Fitoterápicos e exames laboratoriais: O que você precisa saber sobre Interações e Interferências

 Fitoterápicos e exames laboratoriais: O que você precisa saber sobre Interações e Interferências

     Cada vez mais o uso de produtos naturais e fitoterápicos ganha espaço significativo no Brasil e no mundo (BRASIL, 2006; WHO, 2014). Muitas pessoas recorrem a tratamentos à base de plantas, sendo por meio de chás fitoterápicos, cápsulas e extratos em busca de tratamentos mais naturais, acreditando que, por serem de origem vegetal, estariam menos propensos a terem reações adversas. Entretanto, a farmacologia moderna reconhece que fitoterápicos possuem princípios ativos capazes de exercer efeitos reais no organismo (HU et al., 2005), o que significa que eles também podem alterar parâmetros laboratoriais e interferir em exames clínicos (WHO, 2000).

Como os fitoterápicos interferem nos exames?

A interação dos compostos vegetais com os exames laboratoriais ocorre por diferentes mecanismos, que podem ser classificados em efeitos farmacológicos diretos, efeitos indiretos e interferências analíticas.

Nos efeitos farmacológicos diretos, os princípios ativos presentes nas plantas exercem ações fisiológicas que modificam parâmetros clínicos do indivíduo, sendo possível, inclusive, mensurá-los. Por exemplo, compostos com ação diurética, como os presentes no chá de hibisco (Hibiscus sabdariffa), podem alterar a concentração sérica de eletrólitos, como sódio e potássio (BASTOS et al., 2015).

Já os efeitos indiretos estão relacionados à interação entre fitoterápicos e medicamentos. Determinadas plantas podem induzir ou inibir enzimas metabolizadoras, alterando a biodisponibilidade de fármacos e resultados laboratoriais. A erva-de-são-joão (Hypericum perforatum), por exemplo, é um indutor potente da CYP3A4 e da glicoproteína-P, podendo reduzir a concentração plasmática de anticoncepcionais, anticoagulantes e imunossupressores, o que pode causar falhas terapêuticas e/ou resultados laboratoriais inesperados (HU et al., 2005).

Por fim, existem as interferências analíticas, em que os compostos presentes nas plantas reagem diretamente com reagentes utilizados nas metodologias laboratoriais, ocasionando resultados falsamente elevados ou reduzidos. Isso é especialmente importante em exames colorimétricos e imunológicos, nos quais a presença de pigmentos vegetais, polifenóis ou alcaloides pode modificar a reação química, gerando falsos positivos ou negativos. A Organização Mundial da Saúde alerta que esse tipo de interferência é subestimado na prática clínica, mas pode impactar significativamente a confiabilidade dos resultados laboratoriais, dificultando o diagnóstico correto (WHO, 2000).

Assim, compreender os mecanismos de interferência dos fitoterápicos é essencial para profissionais de saúde e laboratórios, uma vez que garante não apenas a segurança do paciente, mas também a precisão diagnóstica. A anamnese detalhada, incluindo o uso de plantas medicinais e suplementos, deve ser considerada indispensável na interpretação de exames clínicos.

Exemplos relevantes na prática clínica

  • Erva-de-são-joão (Hypericum perforatum)

Utilizada no tratamento da depressão leve e ansiedade, é um potente indutor da enzima CYP3A4 do citocromo P450. Isso pode reduzir a eficácia de medicamentos metabolizados por essa via, como anticoncepcionais orais, anticoagulantes e imunossupressores, além de alterar exames de função hepática (HENDERSON et al., 2002; ROBY, 2000).

  • Ginseng (Panax ginseng)

Conhecido como estimulante e adaptógeno, pode interferir na coagulação, aumentando o risco de sangramentos. Em exames, modifica resultados do Tempo de Protrombina (TP) e INR, confundindo o resultado de pacientes em uso de varfarina (YUAN et al., 2004).

  • Alho (Allium sativum)

Muito usado no controle de colesterol, o alho possui ação antiplaquetária. Isso pode potencializar o efeito de anticoagulantes e modificar exames relacionados à coagulação (BORDIA; VERMA; SRIVASTAVA, 1998).

  • Ginkgo biloba

Utilizado para melhorar memória e circulação, também apresenta efeito antiplaquetário, interferindo em exames de coagulação e aumentando o risco de sangramentos em pacientes que usam aspirina ou varfarina (DUTTA-ROY; GORDON; C, 1999).

  • Kava-kava (Piper methysticum)

Empregada para ansiedade e insônia, pode ser hepatotóxica, levando ao aumento de enzimas hepáticas (TGO, TGP, GGT) em exames bioquímicos (CLOUGH; BAILIE; CURRIE, 2003).

  • Camomila (Chamomilla recutita)

Tradicionalmente a camomila é utilizada como calmante leve e no alívio de distúrbios gastrointestinais, esta planta pode exercer efeito anticoagulante e, em pacientes em uso de varfarina ou aspirina, pode potencializar o risco de sangramentos e interferir em exames de coagulação, como TP e INR (SEGAL et al., 2001; McKAY; BLUMBERG, 2006).

  • Hortelã (Mentha piperita)

Utilizada para distúrbios gastrointestinais e respiratórios, a hortelã pimenta pode afetar a motilidade intestinal e a absorção de alguns fármacos, influenciando resultados terapêuticos e laboratoriais. Além disso, em doses elevadas, pode ocasionar elevação de transaminases hepáticas, alterando exames de função hepática (GRIGOLEIT, 2005; PERSAUD; HEANEY; GEOFFREY, 1995).

Por que essa informação é importante?

Muitos profissionais de saúde relatam casos em que exames laboratoriais apresentaram alterações sem causa aparente, mas posteriormente descobriu-se que o paciente fazia uso de chás ou cápsulas de plantas medicinais (BASTOS et al., 2015). Quando essa informação não é comunicada, há risco de diagnósticos incorretos, tratamentos desnecessários e interações medicamentosas perigosas (WHO, 2014).

O que fazer para evitar problemas quando estiver utilizando um fitoterápico e for realizar um exame laboratorial?

Para evitar esses infortúnios, o paciente deve sempre informar ao médico e ao profissional que irá realizar a triagem e anamnese sobre o uso de fitoterápicos ou suplementos. O registro adequado no prontuário auxilia na interpretação correta dos resultados (WHO, 2000). O médico, por sua vez, deve estar atualizado e bem informado sobre possíveis interações (HU et al., 2005).

Conclusão

 "Os fitoterápicos, assim como os medicamentos sintéticos, apresentam atividade farmacológica e podem proporcionar benefícios terapêuticos; contudo, também podem causar interações medicamentosas e alterar resultados laboratoriais. Conhecer essas possíveis interferências é essencial para uma prática clínica segura e eficaz (BASTOS et al., 2015; WHO, 2014).

Referências bibliográficas:

BASTOS, R. K. et al. Fitoterapia e interação medicamentosa: implicações clínicas. Revista Brasileira de Farmacognosia, v. 25, n. 5, p. 529–536, 2015.

BORDIA, A.; VERMA, S. K.; SRIVASTAVA, K. C. Effect of garlic (Allium sativum) on blood lipids, blood sugar, fibrinogen and fibrinolytic activity in patients with coronary artery disease. Prostaglandins, Leukotrienes and Essential Fatty Acids, v. 58, n. 4, p. 257–263, abr. 1998.

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Brasília: Ministério da Saúde, 2006.

 

CLOUGH, A. R.; BAILIE, R. S.; CURRIE, B. Liver Function Test Abnormalities in Users of Aqueous Kava Extracts. Journal of Toxicology: Clinical Toxicology, v. 41, n. 6, p. 821–829, jan. 2003.

GRIGOLEIT, H. G.; GRIGOLEIT, P. M. Peppermint oil in irritable bowel syndrome. Phytomedicine, 12(8): 601–606, 2005.

HENDERSON, L. et al. St John’s wort (Hypericum perforatum): drug interactions and clinical outcomes. British Journal of Clinical Pharmacology, v. 54, n. 4, p. 349–356, 23 out. 2002.

HU, Z. et al. Herb-Drug Interactions. Drugs, v. 65, n. 9, p. 1239–1282, 2005.

K. DUTTA-ROY, MARGARET J. GORDON, C, A. Inhibitory effect of Ginkgo biloba extract on human platelet aggregation. Platelets, v. 10, n. 5, p. 298–305, jan. 1999.

McKAY, D. L.; BLUMBERG, J. B. A review of the bioactivity and potential health benefits of chamomile tea. Phytotherapy Research, 20(7): 519–530, 2006.

PERSAUD, N.; HEANEY, D.; GEOFFREY, M. Peppermint oil for functional gastrointestinal disorders: A systematic review and meta-analysis. British Medical Journal, 310: 163–167, 1995.

ROBY, C. St John’s Wort: Effect on CYP3A4 activity. Clinical Pharmacology & Therapeutics, v. 67, n. 5, p. 451–457, maio 2000.

SEGAL, R. et al. Camomile tea: Herbal medicine past and present. Israel Journal of Plant Sciences, 49(2): S41–S46, 2001.

World Health Organization (WHO). Safety monitoring of medicinal products: guidelines for setting up and running a pharmacovigilance center. Geneva: WHO, 2000.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO traditional medicine strategy: 2014-2023. Disponível em: <https://www.who.int/publications/i/item/9789241506096>.

YUAN, C.-S. et al. Brief Communication: American Ginseng Reduces Warfarin’s Effect in Healthy Patients. Annals of Internal Medicine, v. 141, n. 1, p. 23, 6 jul. 2004.

 



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