Diuréticos (Osmóticos, Inibidores Da Anidrase, Diuréticos De Alça, Tiazídicos e Poupadores de Potássio): Indicações, efeitos adversos e possíveis interações
Diuréticos
1. INTRODUÇÃO
Os diuréticos representam a classe
mais antiga de agentes anti-hipertensivos eficazes e bem tolerados, cuja
introdução na década de 1950 revolucionou o manejo da hipertensão arterial. A
relevância clínica desses fármacos foi consolidada nos ensaios clínicos
pioneiros das décadas de 1960 e 1970, nos quais sua inclusão era frequente,
muitas vezes atuando como terapia de segunda linha ou adjuvante para otimizar o
controle pressórico (Fulvio et al., 2025; Morales-Olivas, 2024).
O mecanismo de ação central dos
diuréticos, um grupo heterogêneo de compostos, reside na indução da diurese por
meio da modulação do transporte iônico no néfron, resultando em excreção renal
aumentada de água e eletrólitos, primariamente sódio (natriurese) e cloreto.
São classificados funcionalmente com base no local de ação e no mecanismo
específico no néfron, englobando inibidores da anidrase carbônica, osmóticos,
tiazídicos, de alça e poupadores de potássio. Os diuréticos tiazídicos são a
subclasse mais prescrita para a hipertensão arterial, frequentemente em
associação com poupadores de potássio, enquanto os agentes de alça são
empregados em contextos clínicos específicos (Coppola et al., 2025; Morales-Olivas,
2024).
A administração contínua desses
agentes induz um déficit líquido de sódio corpóreo total. Todavia, a magnitude
do efeito é modulada por mecanismos compensatórios renais, que incluem a
ativação do sistema nervoso simpático, do Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona
(SRAA) e alterações na expressão de transportadores epiteliais. Além do sódio,
os diuréticos influenciam a homeostase de outros cátions (potássio, cálcio,
magnésio) e ânions (bicarbonato, fosfato), podendo alterar a hemodinâmica renal
específicos (Blebea et al., 2025; Coppola et al., 2025; Morales-Olivas, 2024).
Os diuréticos constituem uma
estratégia terapêutica primordial e amplamente utilizada para o manejo da
hipertensão arterial, dada sua eficácia em mitigar o volume plasmático e
normalizar os níveis tensionais. Em casos de hipertensão refratária, a coadministração
com outros agentes anti-hipertensivos é prática comum para otimizar a resposta
clínica. Além da hipertensão arterial, estes compostos são vitais no tratamento
de síndromes edematosas associadas à insuficiência cardíaca (IC), considerada a
síndrome edematosa por excelência, onde a disfunção miocárdica ativa o SRAA,
cirrose hepática, síndrome nefrótica e outras nefropatias. O efeito de redução
do volume circulante e da resistência vascular periférica melhora a função
miocárdica e aumenta a tolerância ao esforço físico (Blebea et al., 2025).
Adicionalmente, a utilização de
diuréticos estende-se ao manejo da insuficiência renal (IR) e de desequilíbrios
eletrolíticos. Determinados membros desta classe farmacológica são empregados
para diminuir a excreção urinária de cálcio, o que pode ser preventivo na
formação de cálculos renais, enquanto outros, por sua vez, promovem o aumento
da excreção cálcica, sendo úteis no controle da hipercalcemia. Ademais, os
diuréticos osmóticos e os diuréticos de alça são relevantes para a manutenção
do fluxo urinário adequado e para a regulação de condições patológicas que
estão associadas ao comprometimento da função renal (Blebea et al., 2025).
Em um contexto terapêutico que
transcende as suas principais aplicações cardiovasculares e renais, os
diuréticos tiazídicos têm sido investigados no tratamento da osteoporose em
pacientes do sexo feminino na pós-menopausa, embora esta indicação específica
ainda não possua a aprovação regulatória da Food and Drug Administration (FDA).
Nestes casos, a administração pode ser feita como monoterapia ou em combinação
com suplementos de cálcio ou estrogênio. Outro benefício notável refere-se à
demonstração de que a hidroclorotiazida exibe efeitos favoráveis no manejo do
diabetes insípido de etiologia tanto hipofisária quanto nefrogênica (Blebea et
al., 2025).
Sendo assim, entende-se que os
diuréticos exercem seus efeitos atuando em diferentes segmentos do néfron,
alterando o equilíbrio de sódio, água e eletrólitos para promover a diurese.
Eles são classificados com base em seu mecanismo de ação e no local de seu
efeito dentro do néfron, sendo cada classe de diuréticos um mecanismo de ação
distinto (Blebea et al., 2025).
2. OSMÓTICOS
São substâncias que
passam facilmente pelo glomérulo, têm baixa reabsorção nos túbulos renais e
apresentam pouca atividade farmacológica direta. Seu efeito ocorre
predominantemente na alça de Henle, onde promovem o aumento da eliminação
urinária de diversos eletrólitos (Mancia et al., 2013).
A ação dos diuréticos
osmóticos não depende de receptores ou bloqueio de mecanismos de transporte
renal, mas exclusivamente da pressão osmótica gerada pela presença das
moléculas do fármaco em solução. Eles promovem o deslocamento de água do meio
intracelular para o extracelular, impedindo seu retorno às células. O efeito
diurético é proporcional à concentração do medicamento (Vardanyan;
Hruby, 2006).
O principal representante
desse grupo é o manitol, amplamente utilizado por aumentar a pressão osmótica
nos túbulos renais, reduzindo a reabsorção de água e promovendo a excreção de
sódio com pouca perda de potássio (Vardanyan; Hruby, 2006). É indicado para prevenir oligúria e anúria e
nos casos de diurese osmótica, redução da pressão intracraniana, edema cerebral
ou glaucoma (Vardanyan; Hruby, 2006;
Buckingham, 2020).
Entre os efeitos adversos mais comuns do
manitol estão tosse, dor de garganta e dor de cabeça. Reações menos frequentes
incluem desconforto torácico, febre, náusea, vômitos, tontura, dor muscular e
articular. Em casos mais graves, o manitol pode provocar hipotensão,
taquicardia, congestão pulmonar, edema, desidratação, convulsões, insuficiência
renal aguda e até coma, especialmente em pacientes com falência renal
pré-existente que recebem doses elevadas. Também foram relatados efeitos como
urticária, visão borrada, retenção urinária, tromboflebite, e em casos raros,
episódios maníacos. A administração intravenosa pode causar extravasamento e
infecções no local da aplicação. Além disso, o uso por via inalatória pode
desencadear broncoespasmo severo, sendo contraindicado em pacientes com asma ou
função pulmonar muito comprometida (Drugs.com,
2025).
3. INIBIDORES DA ANIDRASE
Os inibidores da anidrase carbônica (IACs) constituem uma
classe de fármacos diuréticos com aplicações terapêuticas estabelecidas e
potenciais. Reconhecidos no manejo de condições como glaucoma, hipertensão
intracraniana idiopática, mal da altitude, insuficiência cardíaca congestiva e
epilepsia, esses agentes possuem uma ampla gama de indicações aprovadas pelo
FDA (Food and Drug Administration). Além disso, estudos recentes têm
evidenciado benefícios em diversos outros usos clínicos off-label (não
aprovados em bula), expandindo o escopo de sua utilidade na prática clínica (Aslam; Gupta, 2023).
Indicações
aprovadas pela FDA (Aslam; Gupta, 2023).
- Pressão intraocular elevada (glaucoma de ângulo fechado e glaucoma de ângulo aberto)
- Pseudotumor cerebral
- Edema devido à insuficiência cardíaca congestiva
- Epilepsias centrenchefálicas
- Profilaxia do mal da altitude
Exemplos
de indicações não aprovadas pelo FDA (Aslam; Gupta, 2023).
- apneia do sono
- Vazamento de líquido cefalorraquidiano
- Reversão da alcalose metabólica na doença pulmonar obstrutiva crônica
- Prevenção da nefropatia induzida por contraste
A anidrase carbônica no lúmen e no túbulo proximal renal
catalisa a interconversão entre ácido carbônico, água e dióxido de carbono; a
difusão destes últimos para o interior celular e sua reconversão em ácido
carbônico resultam na dissociação em H+ e bicarbonato, processo essencial para
a reabsorção de bicarbonato. A inibição dessa enzima pelos inibidores da
anidrase carbônica (IACs) reduz a reabsorção tubular de bicarbonato, promove
retenção de bicarbonato no lúmen, alcaliniza a urina e determina acidificação
sistêmica, além de aumentar a excreção de água com consequente efeito diurético
e redução da pressão arterial. Essas alterações ácido‑básicas
explicam a utilidade dos IACs no tratamento e prevenção do mal agudo de
montanha, pois atenuam a alcalose respiratória induzida pela hiperventilação em
hipóxia (DrugBank, 2025).
No segmento ocular, os IACs diminuem a produção de humor
aquoso pelo epitélio do corpo ciliar ao reduzir a geração de íons bicarbonato,
o que reduz o fluxo de fluido e baixa a pressão intraocular, justificando seu
emprego no glaucoma. A mesma ação na produção de líquido cefalorraquidiano
sustenta o uso desses agentes na hipertensão intracraniana idiopática. A
acetazolamida também pode ser utilizada para alcalinizar a urina com o objetivo
de aumentar a solubilidade de cálculos de ácido úrico e cistina (DrugBank,
2025).
Os IACs estão disponíveis em formulações
tópicas, orais e parenterais; exemplos clínicos incluem acetazolamida,
metazolamida, etoxzolamida, diclofenamida, dorzolamida, brinzolamida e
zonisamida. No tratamento do glaucoma, distinguem‑se
inibidores tópicos (dorzolamida, brinzolamida), que penetram via córnea e podem
ser usados isoladamente ou em associação com outros fármacos, e inibidores
sistêmicos (acetazolamida, metazolamida, etoxzolamida, diclorfenamida),
indicados quando a terapia tópica é insuficiente ou em situações agudas que
exigem via parenteral (Aslam;
Gupta, 2023).
Os efeitos adversos variam desde
alterações gustativas, fadiga, sintomas gastrointestinais, visão turva,
zumbido, parestesias e cefaleia até reações alérgicas relacionadas ao grupo das
sulfonamidas (erupções, anafilaxia, raramente síndrome de Stevens‑Johnson ou necrólise epidérmica tóxica). Formulações
oftálmicas podem provocar queimação, ceratopatia puntata superficial e reações
conjuntivais locais; um sabor amargo residual é comumente relatado. A
administração sistêmica está associada a riscos adicionais, incluindo acidose
metabólica, hipocalemia, desordens hematológicas (anemia aplástica,
agranulocitose), nefrolitíase e, em casos raros, necrose hepática fulminante. A
alcalinização urinária decorrente do aumento da excreção de bicarbonato pode
favorecer a formação de cálculos de oxalato de cálcio (Aslam; Gupta, 2023).
Por causa do risco de lesão hepática, os
IACs são contraindicados em pacientes com doença hepática significativa, como
cirrose ou insuficiência hepática; a hepatotoxicidade, possivelmente por
reatividade cruzada com sulfonamidas, pode manifestar‑se entre dias e semanas após o início do tratamento, com
quadro que varia de elevação enzimática até insuficiência hepática fulminante.
Devido ao potencial de provocar alterações eletrolíticas, seu uso é
desaconselhado em indivíduos com hipocalemia, hiponatremia, acidose metabólica,
acidose hiperclorêmica, insuficiência adrenal ou insuficiência renal grave.
Interações medicamentosas relevantes foram descritas com AINEs,
betabloqueadores, contraceptivos orais, antifúngicos, lítio, metformina,
clopidogrel, diuréticos e agentes antiepilépticos (Aslam; Gupta, 2023).
Como medida preventiva contra
nefrolitíase associada à alcalinização urinária, recomenda-se ingestão adequada
de líquidos no momento da administração dos IACs (Aslam; Gupta, 2023).
4. DIURÉTICOS DE ALÇA
Os diuréticos de alça são
os mais potentes entre os diuréticos, atuando principalmente na alça ascendente
de Henle, onde inibem fortemente a reabsorção de sódio e cloreto. Essa ação
provoca um aumento rápido na excreção desses íons pelos rins, elevando significativamente
o volume de urina. Além disso, há também aumento na eliminação de potássio,
hidrogênio, magnésio e cálcio (Vardanyan;
Hruby, 2006).
Os principais
representantes dessa classe são a bumetanida, o ácido etacrínico e a
furosemida. São indicados para tratar edemas causados por insuficiência
cardíaca grave ou crônica, cirrose hepática, síndrome nefrótica e doenças
renais. Também são utilizados em casos de hipertensão crônica, isoladamente ou
em associação com outros medicamentos, embora a eficácia da bumetanida e do
ácido etacrínico nesse contexto ainda não esteja totalmente comprovada. Além
disso, são úteis no tratamento da hipercalemia severa (Vardanyan; Hruby, 2006).
A bumetanida é indicada
para edemas relacionados à insuficiência cardíaca, doenças hepáticas e renais,
ascite e hipertensão. O ácido etacrínico é especialmente eficaz em edemas
resistentes a outros diuréticos, incluindo edemas cerebrais e pulmonares. Já a
furosemida se destaca pela ação rápida e potente, sendo usada em edemas de
diversas origens, insuficiência renal crônica, crises hipertensivas e
intoxicações por substâncias eliminadas principalmente pela urina. Em alguns
casos, a furosemida mostra-se mais eficaz que outros diuréticos e também possui
efeito vasodilatador periférico, sendo frequentemente combinada com outros
medicamentos anti-hipertensivos (Vardanyan; Hruby, 2006).
Os efeitos adversos mais comuns são
hiponatremia com depleção de volume e hipocalemia. Menos frequentemente, podem
aumentar a eliminação urinária de cálcio e magnésio, contribuindo assim para o
desenvolvimento de arritmias (Morales-Olivas, 2024).
5. TIAZÍDICOS
Os
diuréticos Tiazídicos são classificados como um dos medicamentos mais
utilizados para o tratamento de hipertensão arterial e nos quadros edematosos.
Esta classe possui um mecanismo de ação que envolve a excreção renal de água,
eletrólitos e diminuição da reabsorção de sódio, o local de ação é no túbulo
contorcido distal do nefron, inibindo o cotransportador sódio-cloro na sua
membrana apical.(Patel & Preuss, 2025).
O uso contínuo desta classe de diuréticos faz com que seu
efeito anti-hipertensivo passe a depender menos da diurese e mais da
resistência vascular periférica. Entre os representantes entre os
representantes mais comuns no Brasil estão à hidroclorotiazida, a clortalidona
e a indapamida, sendo mais comum ser receitado é a hidroclorotiazida.
Os tiazídicos são
considerados medicamentos de primeira linha no tratamento da
hipertensão, especialmente em pacientes idosos ou com maior sensibilidade ao
sódio (Póvoa, 2020). Porém o uso destes medicamentos deve ser monitorado, pois
seus efeitos adversos são: hipocalemia, hiperglicemia e aumento do ácido úrico,
especialmente em pacientes com ou diabetes.
Além
disso, outro motivo para serem amplamente utilizados é devido ao seu custo
relativamente baixo e perfil bem conhecido, o que torna uma boa escolha para
casos de hipertensão leve/moderada.
Vale
a pena ressaltar a existência dos
"Thiazide-like" que são compostos que não possui uma estrutura
química semelhante, porém agem da mesma forma.
6. POUPADORES DE POTÁSSIO
Medicamentos que atuam os túbulos
coletores renais promovendo bloqueio da reabsorção de sódio, consequentemente
fazendo com que a perda de secreção de potássio na urina, e ao mesmo tempo
promove a diurese aumentando a secreção de sódio e água.
Essa
classe de medicamentos possui dois subgrupos sendo eles: bloqueadores de canais
de sódio e antagonistas da aldosterona, os mecanismos de ação são
respectivamente, bloqueando os canais epiteliais de sódio no túbulo coletor,
causando a menor reabsorção de sódio levando a menor excreção do potássio. O
outro mecanismo de ação age bloqueando ação da aldosterona, hormônio
responsavel pela reabsorção de sódio e excreção de potássio, esta classe então
consegue bloquear o receptor da aldosterona bloqueando esta ação.
Os
antagonistas se aldosterona são conhecidos como: espironolactona e eplerenona.
E os bloqueadores de canais de sódio são conhecidos como amilorida e
triantereno.
Esta
classe de medicamentos é especialmente utilizada para tratar pacientes com
hipertensão resistente, insuficiência cardíaca, porém apesar da sua eficácia e
importância os diuréticos poupadores de potássio são famosos por causarem os
seguintes efeitos adversos: hipercalemia, fraqueza muscular, arritmias,
tonturas e cefaleia, dito isso é necessário a monitorização constante de
eletrólitos e da função renal durante o uso desta classe de medicamentos
garantindo uma maior segurança terapêutica.
7. REFERÊNCIAS
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