Canetas Emagrecedoras X Exames laboratoriais: o que muda e por que monitorá-los?

 

Canetas Emagrecedoras X Exames laboratoriais: o que muda e por que monitorá-los? 






   Introdução

Os análogos do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), popularmente conhecidos como "canetas emagrecedoras", compõem uma classe farmacológica inicialmente voltada ao tratamento do diabetes mellitus tipo 2 (DM2) e, posteriormente, aprovadas para o manejo da obesidade e sobrepeso com comorbidades. No cenário brasileiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) reconhece essa ampliação de indicação terapêutica fundamentada em dados clínicos robustos. Contudo, observa-se uma expansão do uso off-label (fora da bula) para finalidades estéticas e sem indicação formal, fenômeno impulsionado pela praticidade de perda de peso em curtos períodos divulgada em mídias sociais. Medicamentos como a semaglutida (Ozempic®, Wegovy®), liraglutida (Saxenda®, Victoza®) e tirzepatida (Mounjaro®) exigem obrigatoriamente retenção de receita médica e acompanhamento clínico rigoroso através de exames laboratoriais para garantir a segurança e o uso racional (ANVISA, 2025).

  O que fazem no organismo farmacologicamente?

Fisiologicamente, o GLP-1 é um hormônio endógeno produzido pelas células L do trato gastrointestinal em resposta à ingestão de nutrientes, integrando o chamado efeito incretina. Esse mecanismo induz uma secreção de insulina superior à observada na administração intravenosa de glicose. O GLP-1 atua na homeostase glicêmica ao estimular a secreção de insulina de forma glicose-dependente e inibir a liberação de glucagon, além de retardar o esvaziamento gástrico e promover saciedade através da atuação em centros hipotalâmicos. Estudos sugerem ainda efeitos metabólicos adicionais, como a modulação da lipólise e da secreção de adiponectina, proteína que sensibiliza os receptores de insulina no fígado e nos músculos (Pereira et al., 2025).

   Quais alterações nos exames laboratoriais podem ser provocadas?

A utilização desses fármacos provoca alterações relevantes nos biomarcadores laboratoriais, especialmente no metabolismo glicídico e na função hepática. Observa-se a redução da glicose plasmática em jejum, da hemoglobina glicada (HbA1c) e da concentração de glucagon, acompanhada pelo aumento da secreção de insulina (Freitas et al., 2024). No que tange ao perfil hepático, o tratamento promove a redução significativa das enzimas ALT (Alanina Aminotransferase), GGT (Gama-Glutamil Transferase) e ALP (Fosfatase Alcalina) em pacientes com doença hepática gordurosa não alcoólica, embora os níveis de AST geralmente não apresentem variação estatística significativa. Quanto ao perfil lipídico, embora alguns estudos indiquem efeitos hipolipemiantes, meta-análises sugerem que não um efeito farmacológico direto dos agonistas de GLP-1 sobre os parâmetros de triglicerídeos e colesterol, sendo as melhorias observadas provavelmente decorrentes da perda de peso e da redução da ingestão alimentar (Rezaei et al, 2021).

Em relação à segurança pancreática, a ANVISA emitiu alertas sobre o risco de pancreatite aguda associado ao uso indiscriminado. Ensaios clínicos de larga escala, como os programas STEP e LEADER, demonstraram que o uso de agonistas do receptor de GLP-1 está associado a elevações persistentes e assintomáticas de 20% a 30% nos níveis de amilase e lipase séricas logo nos primeiros meses de terapia. Essas variações são frequentemente interpretadas como uma resposta adaptativa das células ductais pancreáticas e não como evidência de lesão aguda, uma vez que a incidência de pancreatite permanece muito baixa (0,1% a 0,3%) ((Mehta; Lomeli; Pantalone, 2025).

   Conclusão

O monitoramento laboratorial sistemático é essencial para detectar alterações esperadas e riscos potenciais, garantindo segurança terapêutica sob supervisão médica contínua. O farmacêutico contribui na dispensação controlada com retenção de receita (Portaria SVS/MS nº 344/1998), avaliação de interações medicamentosas, orientação sobre posologia e adesão aos exames, além de acompanhamento farmacoterapêutico (Resolução CFF nº 585/2013). A interrupção do tratamento é decisão médica, indicada por toxicidade confirmada, sintomas graves persistentes ou elevações laboratoriais significativas. Por fim, o acompanhamento psicológico é fundamental, pois a perda de peso rápida pode tanto elevar a autoestima quanto desencadear questões de imagem corporal, como o Transtorno Dismórfico Corporal.

   Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância Sanitária. Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de 1998. Aprova o Regulamento Técnico sobre substâncias e medicamentos sujeitos a controle especial. Diário Oficial da União: republicado em 1º fev. 1999, Brasília, DF, 13 maio 1998. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/svs/1998/prt0344_12_05_1998_rep.html. Acesso em: 9 abr. 2026.

CONSELHO FEDERAL DE FARMÁCIA. Resolução nº 585, de 29 de agosto de 2013. Regulamenta as atribuições clínicas do farmacêutico e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 6 set. 2013. Disponível em: https://www.cff.org.br/userfiles/file/resolucoes/585.pdf. Acesso em: 9 abr. 2026.

BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medicamentos agonistas GLP-1 só poderão ser vendidos com retenção da receita. Brasília-DF, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2025/canetas-emagrecedoras-so- poderao-ser-vendidas-com-retencao-de- receita#:~:text=Table_title:%20Medicamentos%20agonistas%20GLP%2D1%20s%C3%B3% 20poder%C3%A3o%20ser,Princ%C3%ADpio%20ativo:%20liraglutida%20%7C%20Indica% C3%A7%C3%A3o:%20Obesidade/sobrepeso%20%7C. Acesso em 09 de mar 2026

FREITAS J. C., SILVANO J., RIBEIRO C., MALHEIRO J., PEDROSO S., ALMEIDA M.,FONSECA I., MARTINS L. S. Agonistas do Receptor de Peptídeo Semelhante ao Glucagon-1 em Transplantados Renais - Estudo Retrospectivo de um Centro Hospitalar. Brazilian Journal of Transplantation, Volume: 27. 2024. Disponível em : https://www.scielo.br/j/bjt/a/JLyNPdLXTTJRftFGH77nHSj/?lang=pt

MEHTA, Adi E.; LOMELI, Laura D.; PANTALONE, Kevin M. Glucagon-like peptide-1 receptor agonists and pancreatitis: a reconcilable divorce. Cleveland Clinic Journal of Medicine, Cleveland, v. 92, n. 8, p. 483-489, ago. 2025. Disponível em: https://www.ccjm.org/content/ccjom/92/8/483.full.pdf . Acesso em: 14 mar. 2026.

PEREIRA, Caroline Martins; ROSSI, Ester Paula Scheidegger; FERNANDES, Mariana Calvi; RIZO, Walace Fraga; BETINI, Adriana Andrade de Sousa. O USO OFF-LABEL DE AGONISTAS DO RECEPTOR DE GLP-1 PARA EMAGRECIMENTO ESTÉTICO. RevistaIbero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, [S. l.], v. 12, n. 2, p. 1–17, 2026. DOI:                                 10.51891/rease.v12i2.24249.                         Disponível                         em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/24249 . Acesso em: 28 fev. 2026.

RAZAEI S., TABRIZI R., NOWROUZI-SOHRABI P. et al. GLP-1 Receptor Agonist Effects on Lipid and Liver Profiles in Patients with Nonalcoholic Fatty Liver Disease: Systematic Review and Meta-Analysis. Canadian Journal of Gastroenterology and Hepatology v. 2021, Issue 1. Disponível em : https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1155/2021/8936865.



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