Dislipidemias: Tratamento e cuidados farmacêuticos
As dislipidemias são doenças que envolvem a alteração na concentração de gorduras do sangue, chamadas de lipoproteínas, como VLDL, LDL (colesterol “ruim”) e HDL (colesterol “bom”), podendo ser genéticas ou adquiridas. Percebe-se a importância de discutir as prevenções e tratamentos dessas doenças, já que elas têm prevalência em até 60% da população brasileira, podendo levar até mesmo a maiores complicações cardiovasculares e pancreatite (GARCEZ et al., 2014).
As dislipidemias são classificadas em (BRASIL, 2020):
Hipercolesterolemia pura: aumento apenas de colesterol LDL;
Hipertrigliceridemia pura: aumento apenas de triglicerídeos;
Hiperlipidemia mista: aumento de colesterol total, LDL e triglicerídeos;
Hiperquilomicronemia: aumento apenas de quilomícrons;
Outras hiperlipidemias.
Além da genética, diversos fatores podem ser a causa de uma dislipidemia: doenças prévias (como diabetes, obesidade, hipotireoidismo, entre outras), uso prolongado de alguns tipos de medicamentos (como diuréticos,corticóides, contraceptivos, antidepressivos, entre outros), e um estilo de vida sedentário, tabagista, e com consumo excessivo de álcool, ultraprocessados, açúcares e gorduras saturada. Normalmente, estas são doenças silenciosas, que demoram a ser diagnosticadas, por isso a importância de manter consultas e exames periódicos, acompanhando os níveis sanguíneos das lipoproteínas, principalmente para pessoas que se enquadram nos fatores de risco citados (BRASIL, 2020).
O farmacêutico exerce papel fundamental no cuidado de pacientes com dislipidemias, atuando na promoção do uso racional de medicamentos, adesão ao tratamento, acompanhamento farmacoterapêutico e educação em saúde (SANTOS et al., 2022).
Portanto, atribuições do farmacêutico incluem a orientação quanto ao uso correto dos medicamentos hipolipemiantes, incluindo horários de administração, possíveis interações medicamentosas, efeitos adversos e importância da continuidade do tratamento, já que muitos pacientes interrompem o uso de estatinas devido a sintomas musculares ou ausência de sintomas da doença (SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2022).
Além disso, o farmacêutico participa do monitoramento clínico e laboratorial do paciente, avaliando exames como colesterol total, LDL, HDL, triglicerídeos e enzimas hepáticas, contribuindo para identificação precoce de falhas terapêuticas e reações adversas. Esse acompanhamento permite maior segurança no tratamento e possibilita intervenções precoces junto à equipe multiprofissional quando necessário (FERREIRA et al., 2021).
A educação em saúde também representa uma importante função do farmacêutico no manejo das dislipidemias. Durante o atendimento, ele pode incentivar mudanças no estilo de vida, como adoção de alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, cessação do tabagismo e redução do consumo de álcool, medidas consideradas essenciais para redução do risco cardiovascular e potencialização da terapia (BRASIL, 2020).
O cuidado farmacêutico individualizado tem demonstrado impacto positivo no controle das dislipidemias e na prevenção de doenças cardiovasculares. Estudos recentes evidenciam que pacientes acompanhados por farmacêuticos apresentam melhores taxas de adesão terapêutica, maior controle dos níveis lipídicos e redução de fatores de risco cardiovasculares, reforçando a importância desse profissional na atenção primária e nos demais níveis de atenção à saúde (MENDES et al., 2024).
As dislipidemias são um importante fator de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, incluindo aterosclerose, infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral. O tratamento farmacológico tem como objetivo reduzir os níveis de lipídios séricos e prevenir complicações cardiovasculares, dentre as diferentes classes de medicamentos de acordo com o perfil lipídico e a necessidade clínica do paciente (SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2017).
As estatinas são a principal classe utilizada no tratamento das dislipidemias, reduzindo a produção de colesterol no fígado e aumentando a remoção de LDL da circulação sanguínea. Exemplos incluem sinvastatina, atorvastatina e rosuvastatina (BRUNTON et al., 2019).
Os fibratos, como fenofibrato e bezafibrato, promovem aumento da oxidação de ácidos graxos e redução dos níveis de triglicerídeos, além de elevação discreta do HDL. São especialmente indicados para hipertrigliceridemia (RANG et al., 2020).
A ezetimiba é um hipolipemiante que reduz a absorção intestinal de colesterol, favorecendo a redução do LDL plasmático. Pode ser utilizada isoladamente ou associada às estatinas (BRUNTON et al., 2019).
As resinas sequestradoras de ácidos biliares, como colestiramina e colesevelam, impedindo a reabsorção de ácidos biliares. Isso leva o fígado a utilizar mais colesterol para produzir novos ácidos biliares, reduzindo os níveis de LDL (RANG et al., 2020).
O ácido nicotínico (niacina) reduz a síntese hepática de VLDL e LDL, além de elevar significativamente os níveis de HDL (BRUNTON et al., 2019).
Os ácidos graxos ômega-3, utilizados principalmente na hipertrigliceridemia, reduzem a síntese hepática de triglicerídeos e VLDL. (RANG et al., 2020).
É importante se atentar aos efeitos adversos destes medicamentos, sendo que os mais comuns são dor muscular (no caso das estatinas), aumento das enzimas hepáticas, dor de cabeça, desconforto gastrointestinal, alterações hepáticas. Em casos raros, podem causar rabdomiólise e hepatotoxicidade (KATZUNG et al., 2022).
O tratamento farmacológico das dislipidemias deve sempre ser associado a mudanças no estilo de vida, incluindo alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle do peso corporal e abandono do tabagismo, visando maior eficácia terapêutica e redução do risco cardiovascular (SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2017).
Referências Bibliográficas:
BRASIL. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dislipidemia: Prevenção de Eventos Cardiovasculares e Pancreatite. Ministério da Saúde, Brasília, 2020.
BRUNTON, Laurence L.; HILAL-DANDAN, Randa; KNOLLMANN, Björn C. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 13. ed. Porto Alegre: AMGH, 2019.
FERREIRA, L. M.; SILVA, P. R.; COSTA, A. C. Acompanhamento farmacoterapêutico em pacientes com dislipidemia na atenção primária à saúde. Revista Brasileira de Farmácia, Brasília, v. 102, n. 3, p. 1-10, 2021.
GARCEZ, M. R. et al. Prevalence of dyslipidemia according to the nutritional status in a representative sample of São Paulo. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v. 103, n. 6, p. 476-484, dez. 2014.
KATZUNG, Bertram G.; VANDERAH, Todd W. Farmacologia básica e clínica. 15. ed. Porto Alegre: AMGH, 2022.
MENDES, G. S. et al. Impact of pharmaceutical care on adherence and lipid control in patients with dyslipidemia: a systematic review. Research in Social and Administrative Pharmacy, New York, v. 20, n. 2, p. 145-154, 2024.
RANG, H. P. et al. Farmacologia. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020.
SANTOS, M. A. et al. Pharmaceutical care in dyslipidemia and cardiovascular risk reduction. International Journal of Clinical Pharmacy, Dordrecht, v. 44, n. 5, p. 1123-1131, 2022.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2017. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v. 109, n. 2, supl. 1, p. 1-76, 2017.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v. 119, n. 1, supl. 1, p. 1-214, 2022.
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