MEDICAMENTOS QUE AFETAM O TRATO GASTROINTESTINAL
MEDICAMENTOS QUE AFETAM O TRATO GASTROINTESTINAL
INTRODUÇÃO
O trato gastrointestinal (TGI) é de extrema importância no quesito de absorção de fármacos administrados via oral, visto que o método de tratamento mais utilizado é administração oral de medicamentos (Candido, 2024).
Alguns fármacos podem causar alterações na microbiota intestinal, ocasionando efeitos indesejados. Com isso, estes efeitos adversos ocasionados são relevantes para que se haja um maior cuidado e atenção dos profissionais da saúde (Candido, 2024).
O farmacêutico é um dos principais profissionais da equipe multidisciplinar que pode correlacionar os efeitos adversos ocasionados no trato gastrointestinal do paciente devido a utilização de certos fármacos ou interações causadas (Candido, 2024)
PRINCIPAIS CLASSES FARMACOLÓGICAS
Os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) são amplamente reconhecidos por sua toxicidade gastrointestinal. De acordo com Wolfe, Lichtenstein e Singh (1999), o mecanismo primário envolve a inibição das enzimas ciclooxigenases (COX-1 e COX-2), reduzindo a síntese de prostaglandinas gastroprotetoras, o que resulta em diminuição do fluxo sanguíneo mucosal, da produção de muco e bicarbonato, além de aumentar a adesão de leucócitos. Clinicamente, manifestam-se por dor epigástrica, queimação, erosões da mucosa e úlceras pépticas, podendo evoluir com complicações hemorrágicas ou perfuração (Lanza; Chan; Quigley, 2009).
Os corticosteroides (como prednisona e metilprednisolona) também aumentam o risco de úlcera gástrica e sangramento gastrointestinal. Conforme Narum, Limburg e Drasner (2014), embora o mecanismo seja menos direto que o dos AINEs, acredita-se que os corticosteroides inibam a reparação tecidual, reduzam a produção de muco protetor e, em altas doses ou uso prolongado, favoreçam a gastrite erosiva e a ulceração, especialmente quando associados a outros fatores de risco, como o uso concomitante de AINEs.
Os inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA), como captopril, enalapril e lisinopril, são medicamentos de primeira linha para hipertensão e insuficiência cardíaca. Segundo Atlas (2007), embora seus efeitos gastrintestinais sejam menos frequentes, há relatos de dispepsia, náuseas e, caracteristicamente, alteração do paladar (disgeusia), que pode contribuir para o desconforto geral e a baixa adesão ao tratamento em alguns pacientes.
Os bisfosfonatos (alendronato, risedronato), amplamente utilizados no tratamento da osteoporose, são conhecidos por causar eventos adversos gastrointestinais significativos. De acordo com Lanza, Chan e Quigley (2009), as manifestações dispépticas estão entre os efeitos secundários mais comuns da administração oral de bisfosfonatos, incluindo azia, eructações e dor retroesternal de características esofagianas. Um mecanismo importante é o dano químico direto à mucosa esofágica quando o medicamento permanece em contato prolongado com o epitélio, podendo induzir esofagite ulcerada grave. Em um relato de caso, Monsanto et al. (2010) descrevem uma paciente em uso de alendronato que desenvolveu odinofagia severa e disfagia, com achados endoscópicos de múltiplas úlceras esofágicas recobertas por exsudado pseudomembranoso, caracterizando necrose da mucosa. Os autores ressaltam que, apesar de serem eventos pouco frequentes, lesões esofágicas graves podem ocorrer, principalmente quando o fármaco é ingerido de maneira incorreta (com pouca água ou sem permanecer em posição ortostática), podendo evoluir com estenoses pós-inflamatórias (Monsanto et al., 2010).
Por fim, o cloreto de potássio, especialmente em suas formulações de liberação imediata, é um agente bem documentado como causador de irritação gástrica e ulceração. Conforme McMahon (2012), a liberação concentrada do sal na luz gastrintestinal pode gerar um efeito irritativo direto na mucosa, resultando em erosões, úlceras e, em casos mais graves, sangramento ou perfuração. Esse efeito adverso é menos comum com as formulações de liberação prolongada ou microencapsuladas, que promovem uma distribuição mais homogênea do fármaco.
Em suma, o reconhecimento dessas associações é fundamental para a prática clínica, permitindo a adoção de estratégias preventivas – como a administração adequada de bisfosfonatos (em jejum, com quantidade suficiente de água e mantendo-se em posição ereta por pelo menos 30 minutos), o uso de formulações gastrorresistentes de potássio e a co-prescrição de gastroprotetores quando necessário – reduzindo assim a morbidade relacionada a esses fármacos.
INDICAÇÕES DO FARMACÊUTICO
Os medicamentos que atuam no trato gastrointestinal são muito utilizados para aliviar sintomas como azia, refluxo, dor no estômago, náuseas, vômitos, prisão de ventre, diarreia e má digestão. Apesar de serem comuns, eles precisam ser usados com cuidado e orientação adequada para garantir segurança e melhores resultados no tratamento. Nesse contexto, o farmacêutico possui um papel muito importante no cuidado ao paciente, ajudando na escolha correta do medicamento, orientando sobre a forma de uso e prevenindo possíveis problemas relacionados ao tratamento.
As orientações sobre o uso correto desses medicamentos são fundamentais para que o tratamento seja eficaz. Alguns medicamentos para refluxo e gastrite, como os protetores gástricos, costumam ter melhor efeito quando tomados em jejum, cerca de 30 minutos antes das refeições. Já os antiácidos geralmente são utilizados após as refeições ou quando os sintomas aparecem. O farmacêutico também orienta sobre a quantidade correta, o tempo de uso e os cuidados para evitar automedicação excessiva.
A alimentação também influencia diretamente na saúde gastrointestinal e na ação dos medicamentos. Por isso, é importante evitar alimentos muito gordurosos, condimentados, frituras, bebidas alcoólicas e excesso de café, principalmente em casos de gastrite e refluxo. Manter uma alimentação equilibrada, beber bastante água e ter horários regulares para as refeições ajuda no funcionamento adequado do sistema digestivo e melhora os resultados do tratamento.
Além disso, o paciente deve ser orientado a procurar ajuda profissional quando apresentar sinais de alerta, como dor intensa, sangue nas fezes ou no vômito, perda de peso sem explicação, febre, vômitos persistentes, diarreia por vários dias ou sintomas frequentes que não melhoram com o uso dos medicamentos. Nessas situações, o acompanhamento médico é indispensável.
O farmacêutico atua como um profissional acessível à população, promovendo o uso racional dos medicamentos e contribuindo para a saúde e qualidade de vida dos pacientes. Por meio da orientação adequada, ele ajuda a prevenir efeitos indesejáveis, interações medicamentosas e o uso incorreto dos medicamentos, garantindo mais segurança e eficácia no tratamento dos problemas gastrointestinais.
REFERÊNCIAS
ATLAS, S. A. The renin-angiotensin-aldosterone system: pathophysiological role and pharmacologic inhibition. Journal of Managed Care Pharmacy, v. 13, n. 8, suppl. B, p. 9-20, 2007.
Candido, Giovanna; Mazzarotto, Edson; Gregório, Paulo; Gasparin, Caroline. A INFLUÊNCIA DOS FÁRMACOS SOBRE A MICROBIOTA GASTROINTESTINAL HUMANA: UMA REVISÃO DE LITERATURA. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences Volume 6, Issue 9 (2024), Page 1358-1368.
LANZA, F. L.; CHAN, F. K. L.; QUIGLEY, E. M. M. Guidelines for prevention of NSAID-related ulcer complications. The American Journal of Gastroenterology, v. 104, n. 3, p. 728-738, 2009.
MCMAHON, F. G. Potassium chloride: immediate-release versus sustained-release formulations. The Journal of Clinical Pharmacology, v. 52, n. 4, p. 456-462, 2012.
MONSANTO, P. et al. Esofagite química associada ao uso de ácido alendrónico. Jornal Português de Gastrenterologia, Lisboa, v. 17, n. 3, p. 125-127, 2010.
NARUM, S.; LIMBURG, T.; DRASNER, K. Corticosteroid use and risk of upper gastrointestinal bleeding: a systematic review. Journal of Pharmacy Practice, v. 27, n. 5, p. 478-485, 2014.
WOLFE, M. M.; LICHTENSTEIN, D. R.; SINGH, G. Gastrointestinal toxicity of nonsteroidal antiinflammatory drugs. The New England Journal of Medicine, v. 340, n. 24, p. 1888-1899, 1999.
Sociedade Brasileira de Gastroenterologia. Orientações sobre doenças gastrointestinais e uso de medicamentos. São Paulo: SBG, 2021.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Uso racional de medicamentos: temas selecionados. Brasília: ANVISA, 2012.
Ministério da Saúde. Formulário Terapêutico Nacional 2022. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.
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