Interpretação de Exames Hepáticos


    Os exames hepáticos são análises laboratoriais utilizadas para investigar alterações no fígado e no sistema hepatobiliar. Entre os principais marcadores estão as enzimas aspartato aminotransferase (AST; anteriormente conhecida como transaminase glutâmico-oxalacética, TGO), alanina aminotransferase (ALT; ou transaminase glutâmico-pirúvica), gama-glutamil transferase (GGT) e fosfatase alcalina (FA). Apesar do nome, esses exames não avaliam diretamente todas as funções do fígado, mas fornecem informações sobre possíveis lesões hepatocelulares, alterações das vias biliares e colestase. O fígado desempenha funções essenciais, como o metabolismo de nutrientes, a produção e transformação de substâncias e o processamento de medicamentos. Por isso, a avaliação laboratorial é importante na investigação de alterações hepáticas. A interpretação deve considerar os valores de referência do laboratório, o quadro clínico e outros exames complementares, pois uma alteração isolada não é suficiente para estabelecer um diagnóstico (Andriolo, 2019; Caquet, 2017; Nicoll, 2019).

    A AST (aspartato aminotransferase) e a ALT (alanina aminotransferase), são enzimas envolvidas no metabolismo dos aminoácidos e liberadas no sangue quando ocorre dano celular. A ALT está presente predominantemente no fígado, enquanto a AST também é encontrada em grande quantidade no coração, músculos esqueléticos, cérebro, rins e hemácias. Por isso, a ALT apresenta maior especificidade para lesão hepática (Nicoll, 2019; Caquet, 2017). A AST pode aumentar em doenças hepáticas, mas também em lesões musculares, infarto do miocárdio, hemólise e após atividade física intensa. Entre as causas hepáticas estão hepatites virais, hepatite alcoólica, cirrose, obstrução das vias biliares, abscesso e câncer hepático, além de lesões relacionadas à isquemia ou hipóxia, como o “fígado de choque”. Além disso, alguns medicamentos também podem provocar elevação por hepatotoxicidade ou colestase (Andriolo, 2019; Nicoll, 2019).

    Por apresentar maior concentração no fígado, a ALT está mais diretamente relacionada à lesão hepatocelular. Pode estar elevada em hepatites virais agudas ou crônicas, esteato-hepatite não alcoólica, hepatite alcoólica, cirrose, obstrução das vias biliares, hepatite medicamentosa, isquemia ou hipóxia hepática e tumores hepáticos (Nicoll, 2019). Nas hepatites agudas, as aminotransferases podem apresentar elevações importantes e, em algumas hepatites virais ou tóxicas, a ALT pode atingir valores de 10 a 100 vezes o limite superior de referência. Já nas doenças crônicas, elevações leves ou moderadas são mais comuns (Caquet, 2017). Entretanto, valores normais de AST e ALT não excluem completamente uma doença hepática, especialmente em casos de doenças crônicas ou cirrose (Andriolo, 2019).

    A relação entre AST e ALT pode fornecer informações complementares. Em geral, a ALT apresenta maior elevação nas doenças hepatocelulares. Já na hepatite alcoólica, a relação AST/ALT costuma ser maior que 2, enquanto em pacientes com hepatite C, uma relação superior a 1 pode sugerir evolução para cirrose. Esses índices, porém, não devem ser utilizados isoladamente e precisam ser avaliados junto ao quadro clínico e aos demais exames (Nicoll, 2019; Andriolo, 2019). Fatores pré-analíticos também podem interferir nos resultados. A hemólise deve ser evitada, pois as hemácias possuem alta atividade de transaminases, e exercício físico intenso, agitação e injeções intramusculares também podem provocar aumento dessas enzimas (Caquet, 2017).


    A GGT (gama-glutamiltransferase) é encontrada principalmente no fígado, rins e pâncreas, sendo a GGT presente na circulação predominantemente de origem hepatobiliar. É um marcador sensível de alterações do fígado e das vias biliares, porém apresenta baixa especificidade quando analisado isoladamente (Andriolo, 2019). Pode estar aumentada em hepatites virais ou tóxicas, hepatite alcoólica, cirrose, obstrução das vias biliares e neoplasias hepáticas. Determinados medicamentos também podem elevar a enzima por indução enzimática (Nicoll, 2019). O consumo excessivo de álcool pode aumentar a GGT, tornando-a útil como marcador auxiliar na investigação do consumo crônico e no acompanhamento da abstinência. Entretanto, uma GGT elevada não indica necessariamente consumo de álcool, pois também pode ocorrer em doenças hepatobiliares, esteatose hepática e pelo uso de medicamentos (Caquet, 2017).

    Uma das principais aplicações da GGT é auxiliar na identificação da origem de uma fosfatase alcalina elevada. Quando FA e GGT estão aumentadas, é mais provável que a alteração da FA tenha origem hepatobiliar. Já quando a FA está elevada e a GGT permanece normal, deve-se considerar principalmente uma origem óssea (Nicoll, 2019). A fosfatase alcalina é encontrada principalmente no fígado, ossos, intestino, rins e placenta, sendo suas principais contribuições sanguíneas de origem hepática e óssea. No fígado, está associada aos canalículos biliares e, por isso, é especialmente útil na investigação de colestase, caracterizada pela redução ou interrupção do fluxo normal da bile (Andriolo, 2019).

    A FA pode aumentar em obstruções das vias biliares, colangite, doenças hepáticas colestáticas e neoplasias, mas também em condições ósseas, como doença de Paget, osteomalácia, raquitismo, metástases ósseas e durante o crescimento fisiológico. Dessa forma, a idade deve ser considerada, principalmente em crianças e adolescentes (Nicoll, 2019; Caquet, 2017). Entre as causas de elevação predominante da FA estão obstruções das vias biliares, colangite esclerosante primária e colangite biliar primária. Quando há aumento predominante de FA e GGT, exames de imagem, como ultrassonografia, tomografia computadorizada ou ressonância magnética, podem complementar a investigação, principalmente diante da suspeita de obstrução das vias biliares (Andriolo, 2019).

    A interpretação dos exames hepáticos deve considerar o quanto cada marcador ultrapassa seu próprio limite superior de referência, pois esses valores podem variar entre laboratórios e metodologias (Andriolo, 2019). Por exemplo, se um paciente apresenta AST de 120 U/L, com limite superior de 40 U/L, e FA de 130 U/L, com limite superior de 120 U/L, a AST está aproximadamente três vezes acima do limite, enquanto a FA apresenta apenas uma elevação discreta. Nesse caso, o padrão é predominantemente hepatocelular. De maneira geral, a predominância de AST e ALT sugere um padrão hepatocelular, enquanto a elevação de FA associada à GGT aponta para um padrão colestático ou hepatobiliar. Assim, a ALT é mais específica para lesão hepática, a AST pode sofrer influência de outros tecidos, a GGT é sensível, mas pouco específica, e a FA pode ter origem hepática ou óssea. Portanto, esses exames devem ser avaliados em conjunto com a história clínica e outros exames complementares, evitando conclusões baseadas em um único resultado laboratorial.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

ANDRIOLO, Adagmar. Manual da residência de medicina laboratorial. Barueri: Manole, 2019. E-book. ISBN 9788520461426. Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788520461426/. Acesso em: 17 ago. 2026. 
 
CAQUET, René. 250 exames de laboratório: prescrição e interpretação. 12. ed. Rio de Janeiro: Thieme Revinter, 2017. E-book. ISBN 9788554650711. Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788554650711/. Acesso em: 17 ago. 2026. 
 
NICOLL, Diana. Manual de exames diagnósticos. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2019. E-book. ISBN 9788580556261. Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788580556261/. Acesso em: 17 ago. 2026. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Interpretação de perfil lipídico

Hemoglobina glicada (HbA1c) 7%

Simpatolíticos: o que são e como atuam no controle da hipertensão